
Um amigo comenta que está pensando em mudar de cidade. Antes de ele concluir, você já pesquisou bairros, comparou custos e sugeriu o que faria no lugar dele. A resposta vem com uma hesitação: “Eu ainda não decidi se quero ir”. Você estava resolvendo a mudança. Ele estava tentando decidir se desejava mudar.
A conversa pode começar com cuidado verdadeiro e terminar numa tarefa que a outra pessoa não pediu. Depois de compreender melhor uma dificuldade, ainda precisamos escolher como oferecer ajuda. É nesse momento que o desejo de ser útil pode se transformar em pressão para aceitar uma solução.
Como ler este artigo. Os diálogos são fictícios e o treino é uma proposta educativa. A entrevista motivacional é apresentada como referência de comunicação colaborativa; este artigo não oferece formação clínica nem um roteiro de psicoterapia.
No primeiro capítulo de Motivational Interviewing: Helping People Change, terceira edição, William Miller e Stephen Rollnick descrevem o righting reflex: o impulso de corrigir o que parece errado e conduzir rapidamente alguém para um caminho considerado melhor. O problema ganha força quando a pessoa tem razões conflitantes para mudar e quem ajuda passa a defender apenas uma delas. [1]
O termo pertence à entrevista motivacional, uma abordagem que exige formação e prática. Aqui, ele orienta uma reflexão sobre conversas cotidianas, sem oferecer um procedimento clínico. O foco é observar quando uma contribuição deixa de ser uma possibilidade e passa a exigir concordância.
O artigo Você está ouvindo ou apenas esperando a sua vez de orientar? trata de descobrir o problema antes de responder. Este começa no passo seguinte: mesmo quando entendemos a situação, como apresentar uma sugestão sem assumir a decisão que cabe à outra pessoa?
Há uma diferença entre “pensei numa alternativa, você quer ouvir?” e “já encontrei a melhor solução para você”. A segunda frase pode criar uma obrigação de gratidão e concordância. Recusar a proposta passa a parecer recusar o esforço de quem a preparou.
No exemplo da mudança, o amigo pode gostar de uma oportunidade profissional e temer perder a convivência com a família. Se você apresenta apenas as vantagens de ir, ele talvez precise defender as razões de ficar. Isso não permite diagnosticá-lo como resistente. A conversa passou a distribuir entre duas pessoas os lados de uma escolha ainda aberta.
A contribuição pode ser útil sem resolver a ambivalência. “Quero entender quais critérios você deseja considerar; depois, se fizer sentido, posso ajudar a comparar as opções” define uma tarefa mais limitada. O amigo continua responsável por dizer o que importa e por decidir quando ainda não sabe.
“Posso sugerir uma coisa?” só preserva escolha se a resposta puder ser “não” ou “agora não”. Quando a recomendação vem imediatamente depois da pergunta, sem uma pausa, a licença funciona como introdução ao conselho, não como uma decisão compartilhada.
Uma recusa também não precisa iniciar uma negociação sobre o direito de recusar. “Tudo bem; se quiser retomar isso depois, me avise” deixa a possibilidade aberta. Insistir com “mas é uma ideia tão simples” acrescenta pressão justamente onde a pergunta deveria criar espaço.
Há ainda uma diferença entre aceitar ouvir e aceitar fazer. Uma pessoa pode autorizar a explicação, considerar a alternativa e decidir não adotá-la. O consentimento para a conversa não é um compromisso antecipado com a proposta. Essa distinção importa em relações de amizade, de ensino e de trabalho.
Apresente uma sugestão por vez, com o motivo e as condições em que ela pode servir. Em vez de uma lista de providências, diga: “Se sua prioridade for reduzir o deslocamento, esta alternativa merece uma comparação”. O critério fica visível e pode ser contestado.
Também é possível delimitar a sua experiência: “Foi o que funcionou para mim, mas as condições eram estas”. Uma história pessoal não oferece uma conclusão automática sobre a vida de outra pessoa. O que você pode emprestar é uma possibilidade a examinar.
Depois, pergunte: “O que não se encaixa?”. Essa pergunta muda a tarefa de quem recebe a sugestão. Ela não precisa escolher entre elogiar e rejeitar a ajuda inteira; pode apontar uma condição específica. O retorno serve para adaptar, retirar ou simplesmente deixar a proposta em aberto.
O pedido de licença não substitui responsabilidades de uma função. Um professor precisa informar critérios de avaliação. Uma liderança pode precisar interromper uma operação insegura. Nesses casos, anunciar uma escolha inexistente cria mais confusão do que dizer com clareza o que é obrigatório.
Considere um laboratório em que o uso de um equipamento de proteção é exigido. “Você quer que eu sugira usar a proteção?” comunica uma liberdade que não existe naquela atividade. Uma formulação mais precisa é: “Para participar desta etapa, a proteção é necessária. Podemos verificar o tamanho e ajustar o equipamento antes de começar”.
A obrigação é uma; a maneira de atendê-la pode admitir alternativas. Também pode haver preferências de quem orienta que não são exigências técnicas. Separar essas categorias permite explicar por que algo precisa acontecer e onde há espaço real para negociação.

Uma sugestão feita por quem avalia, contrata ou distribui oportunidades pode ser recebida como ordem. Dizer “é só uma ideia” não elimina essa diferença de poder. Convém tornar explícito se a proposta é opcional e o que acontecerá se ela não for adotada.
Imagine uma liderança que sugere um curso fora do horário de trabalho. A pessoa pode entender que recusar prejudicará sua avaliação. Antes de insistir nas vantagens do curso, a liderança precisa esclarecer se a participação é exigida, como o tempo será tratado e quais outras formas de desenvolvimento são aceitas.
Se não houver liberdade, não a anuncie. Se houver, demonstre isso também no acompanhamento: perguntar novamente pode ser adequado; cobrar adesão a uma atividade apresentada como opcional muda o combinado. Autonomia depende das consequências da resposta, não apenas do tom amável da pergunta.
Em dupla, escolham uma situação fictícia de baixo risco. Uma pessoa apresenta brevemente a decisão que está considerando. A outra pede licença para contribuir. Se a licença for dada, oferece apenas uma sugestão e pergunta: “O que não se encaixa nessa proposta?”.
Quem recebe escolhe uma condição que torna a sugestão inadequada ou incompleta. Quem sugeriu pode pedir um esclarecimento e, então, adaptar ou retirar a proposta. Não é permitido defender a ideia com um novo argumento antes de reconhecer o que foi apontado.
Na segunda rodada, a pessoa responde “prefiro não receber sugestões agora”. O objetivo de quem ajuda passa a ser respeitar essa resposta sem tentar negociar mais um minuto de explicação. Depois, conversem sobre o que foi difícil: limitar a contribuição, ouvir uma objeção ou abandonar uma ideia de que gostavam.
Se houver um observador, ele registra comportamentos concretos: houve espera pela licença? Foi oferecida uma ou várias sugestões? A objeção produziu uma revisão? A recusa foi respeitada? O exercício avalia essas escolhas, não a personalidade nem a competência clínica de ninguém.
Antes de oferecer uma proposta, confira o que está sob sua responsabilidade e o que pertence à decisão da outra pessoa. Depois de apresentá-la, observe se você ainda consegue ouvir uma discordância sem aumentar a pressão.
Uma boa contribuição pode terminar com “isso não serve para mim”. Se a resposta esclarecer uma condição importante ou preservar uma escolha que não era sua, a conversa não foi inútil. A ajuda deixou de depender da vitória de uma ideia.
O amigo que pensa em mudar de cidade talvez precise comparar opções. Talvez precise adiar a decisão. Seu papel pode ser oferecer uma informação, fazer companhia ou reconhecer que ainda não há resposta. O reflexo de consertar perde força quando a utilidade da ajuda deixa de ser medida pela obediência a quem a ofereceu.
Origem dos exemplos: personagens e situações fictícias adaptadas de material didático de Gilmar Barros. As afirmações de pesquisa se apoiam nas referências abaixo.
Assine a newsletter e receba conteúdos objetivos para aplicar no trabalho e na carreira.
Quero receber os conteúdos