
O plano estava organizado, detalhado e cheio de boas intenções. Mesmo assim, ficou na gaveta. Quem o preparou pensou em falta de compromisso. Quem o recebeu pensou que tinha falhado mais uma vez. Entre essas duas conclusões, havia uma informação que ninguém investigou: executar o plano custava mais tempo e dinheiro do que aquela pessoa tinha.
Na história fictícia de Helena e Dona Rosa, quatro páginas de orientações esconderam esse desencontro. A cena ajuda a discutir um problema maior: quando uma proposta fracassa na execução, precisamos examinar as condições da tarefa antes de explicar tudo pela motivação de quem deveria realizá-la.
Como ler este artigo. Os casos são fictícios e os exemplos não prescrevem cuidados de saúde. O modelo COM-B é uma referência para investigar condições do comportamento, não um diagnóstico individual.
Uma pessoa pode querer estudar e não ter um lugar minimamente tranquilo. Pode desejar participar de um curso e depender de um transporte que não atende ao horário. Pode concordar com uma mudança no trabalho e continuar sem acesso ao sistema necessário. Pedir mais empenho não cria automaticamente essas condições.
Susan Michie, Maartje van Stralen e Robert West apresentaram, em 2011, o modelo COM-B. A sigla organiza capacidade, oportunidade e motivação como condições que interagem na produção do comportamento. É uma estrutura para investigar intervenções, não um teste que diagnostica alguém a partir de uma conversa. [1]
Capacidade inclui condições físicas e psicológicas, como conhecimentos e habilidades. Oportunidade abrange condições externas, físicas e sociais. Motivação envolve processos que orientam a ação, inclusive hábitos e emoções. A contribuição central para este artigo é impedir que a investigação termine em “ela não quis”.
Imagine uma professora que pede a uma turma uma apresentação de cinco telas. Para quem já prepara apresentações, a tarefa parece curta. Para um estudante, ela pode exigir aprender a ferramenta, encontrar um aparelho disponível, organizar as ideias num ambiente compartilhado, encontrar imagens autorizadas e conseguir conexão para enviar o arquivo.
O tamanho do resultado não é o tamanho do trabalho. Cinco telas podem esconder muitas operações. Antes de avaliar empenho, a professora precisa saber quais recursos a atividade pressupõe e se estão disponíveis. Talvez o mesmo objetivo de aprendizagem aceite uma explicação oral, um esquema feito no papel ou um roteiro comentado.
No trabalho, algo semelhante acontece com uma nova rotina de registro. “Leva só cinco minutos”, diz quem a propôs. Mas cinco minutos multiplicados por diversas solicitações e somados a etapas duplicadas podem ocupar um espaço relevante. A discussão deve incluir o que sairá da agenda para a novidade entrar.

Dinheiro e tempo são custos fáceis de nomear. Outros exigem cuidado para aparecer: depender de alguém, mudar um momento de convivência, expor uma dificuldade ou realizar algo num ambiente em que a pessoa não se sente segura. Perguntar sobre esses custos é diferente de presumir que sabemos o significado de um hábito.
Se uma pessoa toma um café demorado com colegas, essa pausa pode ser também seu principal momento de interação no dia. A proposta de eliminar a pausa muda mais do que uma bebida. Não precisamos concluir que esse é sempre o motivo. Precisamos perguntar o que a rotina oferece e o que a mudança afetaria.
Para Dona Rosa, uma pergunta possível seria: “O que precisaria mudar na sua semana para fazer isso?”. Se ela mencionar o orçamento, o plano precisa responder ao orçamento. Trocar essa informação por “você precisa acreditar em si” transforma uma restrição concreta numa responsabilidade psicológica individual.
Perguntas sobre recursos devem permitir respostas honestas. “Você consegue fazer tudo isso, certo?” convida à concordância. “Qual parte parece difícil de colocar em prática?” sinaliza que dificuldades fazem parte da construção do plano. A pessoa não precisa demonstrar entusiasmo para merecer ajuda.
Outra pergunta útil é: “O que eu estou supondo que você tem disponível?”. Ela transfere parte da revisão para quem desenhou a proposta. Pode revelar acesso a computador, autonomia de horário, apoio de colegas ou conhecimentos anteriores que foram tomados como garantidos.
Nem toda pessoa quer detalhar renda, relações familiares ou outras informações privadas. É possível oferecer alternativas sem exigir essa exposição: “Podemos escolher uma opção com menor custo ou que tome menos tempo”. O desenho da tarefa pode ser inclusivo antes de alguém precisar justificar sua situação.
Diminuir uma tarefa não significa abandonar o resultado que importa. Significa identificar quais ações são essenciais neste momento. Num treinamento, talvez a prioridade seja dominar uma operação, e não completar todos os módulos na primeira semana. Num projeto, talvez seja validar uma hipótese antes de produzir o relatório completo.
Convém separar objetivo e formato. Se o objetivo é avaliar a compreensão de um conceito, um aplicativo específico pode ser dispensável. Se o objetivo é aprender a usar aquele aplicativo, o acesso a ele precisa ser parte do planejamento, com apoio e tempo compatíveis.
Há limites para a adaptação. Algumas exigências técnicas, de segurança ou de qualidade precisam ser preservadas. Quando não podem ser atendidas, a resposta honesta é reconhecer a impossibilidade ou buscar recursos. Uma tarefa inviável não se torna responsável porque foi descrita em passos pequenos.
Considere uma instrutora que deseja começar uma oficina presencial. O plano inicial prevê dois encontros por semana, além de preparar materiais e continuar suas outras atividades. A proposta foi inspirada na rotina de uma escola que tem equipe de apoio e espaço próprio. O problema não é apenas disciplina: o plano copiou recursos que não foram copiados junto.
Primeira pergunta: qual resultado se deseja? Descobrir se uma oficina responde às dúvidas do público. Segunda: o que já existe? Um roteiro de aula e alguns exercícios. Terceira: o que cabe neste mês? Preparar um encontro piloto num espaço disponível. Quarta: como conferir? Observar quais atividades os participantes conseguem realizar e que dificuldades permanecem.
O resultado pode ser uma oficina menor, com um objetivo claro, em vez de uma agenda que compromete recursos ainda inexistentes. Essa frequência não é uma recomendação universal. É a solução didática de um cenário específico. Depois do piloto, o próximo plano precisa considerar o trabalho de preparação e as respostas dos participantes.
Planejar apenas para a semana ideal cria uma referência frágil. Uma reunião extra, uma dificuldade de transporte ou uma demanda familiar pode desmontar a sequência. Vale combinar uma versão mínima para dias difíceis e definir quando retomar, sem acumular uma dívida de tarefas impossível de pagar.
Para um período de estudo, isso poderia significar manter o encontro com o material, mas reduzir o escopo: revisar uma questão e anotar a dúvida seguinte. Se mesmo isso não couber, a decisão pode ser reagendar. Não é necessário transformar toda interrupção em oportunidade produtiva.
Ao acompanhar, registre o que impediu a execução e qual ajuste será feito. “Não aconteceu” é o início da análise. Não é uma descrição suficiente da pessoa. Essa mudança de linguagem torna possível aprender com o plano sem classificar seu autor como competente e seu executor como resistente.
O objetivo foi compreendido? Os recursos foram confirmados? O tempo inclui preparação e deslocamentos? Há alguma dependência de terceiros? A pessoa pode discordar ou pedir revisão? Qual exigência é indispensável e qual é apenas preferência de quem planejou?
Essas perguntas não eliminam a responsabilidade individual. Ajudam a defini-la com mais precisão, separando o que a pessoa pode fazer do que depende de outras decisões. Responsabilizar alguém por uma ferramenta que nunca recebeu não melhora a execução; apenas torna o problema mais difícil de dizer.
Dona Rosa poderia precisar de apoio para sustentar uma mudança. Antes disso, Helena precisava conhecer a vida em que a mudança aconteceria. Um plano começa a ficar bom quando deixa de exigir uma pessoa imaginária e passa a conversar com os recursos, limites e escolhas de uma pessoa real.
Origem dos exemplos: personagens e situações fictícias adaptadas de material didático de Gilmar Barros. As afirmações de pesquisa se apoiam nas referências abaixo.
Assine a newsletter e receba conteúdos objetivos para aplicar no trabalho e na carreira.
Quero receber os conteúdos