Resumo: Pesquisas mostram que a IA pode apoiar a aprendizagem ou prejudicá-la, dependendo de como a assistência é organizada. O uso mais promissor mantém a pessoa pensando: tenta primeiro, recebe uma orientação, explica o raciocínio e enfrenta uma nova tarefa sem ajuda.
Uma pessoa quer aprender a analisar uma planilha. Em poucos minutos, a IA entrega uma fórmula, explica o resultado e sugere um gráfico. A atividade ficou pronta. Mas uma pergunta permanece: essa pessoa saberá analisar outra planilha amanhã?
É uma distinção importante para estudantes, professores e profissionais. Ferramentas podem ampliar nossa capacidade de produzir enquanto estão disponíveis. Aprender envolve uma mudança que também aparece quando a assistência diminui ou a situação muda.
O bom uso educacional da IA precisa ser planejado em torno dessa mudança. Podemos aproveitar explicações, perguntas e comentários, mantendo espaço para interpretar, escolher, errar e revisar. O resultado esperado é uma pessoa mais capaz de conduzir a próxima etapa.
Um estudo de Hamsa Bastani e cinco coautores, publicado on-line na PNAS em 25 de junho de 2025, acompanhou quase mil estudantes de matemática do ensino médio. Comparou uma assistência semelhante a um chatbot comum com um tutor orientado a preservar a aprendizagem.[1]
Os dois formatos melhoraram o desempenho durante a prática assistida. Depois, sem a ferramenta, o grupo com assistência aberta teve notas 17% menores que o grupo que não recebeu IA. É uma redução relativa, não 17 pontos percentuais. O tutor com restrições pedagógicas mitigou em grande parte esse efeito. Os achados se referem ao contexto e às medidas de curto prazo estudados.
Outra pesquisa, de Greg Kestin, Kelly Miller e colaboradores, publicada em Scientific Reports em 3 de junho de 2025, comparou um tutor de IA especialmente desenvolvido com aulas de aprendizagem ativa, nas quais os alunos participam de atividades. No experimento, estudantes universitários aprenderam mais em menos tempo com o tutor.[2]
Os resultados não sustentam uma promessa para qualquer chatbot ou disciplina. Minha leitura é que o desenho da assistência merece tanta atenção quanto a capacidade de produzir respostas. O conjunto permite investigar condições de uso, em vez de tratar toda experiência com IA como equivalente.
Usar uma ferramenta para concluir uma tarefa rotineira pode ser uma escolha adequada. Se o objetivo é preparar um rascunho que será revisado, delegar partes do trabalho faz sentido. Se o objetivo é aprender a argumentar, delegar toda a argumentação retira uma oportunidade de prática.
Antes de abrir a conversa, proponho escrever um objetivo observável: “Quero justificar a escolha de um indicador”, “Quero explicar este conceito a alguém” ou “Quero reconhecer um erro nesta fórmula”. Isso permite avaliar o que mudou depois.
“Quero aprender mais” é uma intenção válida, mas ampla. Uma habilidade delimitada ajuda a escolher o exercício e evita que uma sessão agradável de conversa seja confundida com progresso demonstrado.
Uma tentativa inicial não precisa ser perfeita. Ela serve para tornar visíveis o conhecimento e a dificuldade. Sem essa tentativa, a ferramenta pode oferecer uma explicação longa para algo que você já sabe e deixar de perceber o ponto em que realmente precisa de ajuda.
Na planilha, por exemplo, escreva qual comparação pretende fazer e que informação considera necessária. Depois, peça à IA que examine o raciocínio. Para estudar um conceito, tente explicá-lo em um pequeno parágrafo antes de solicitar comentários.
Esse procedimento é uma proposta prática, não um método validado como um pacote pelos estudos citados. Seu propósito é manter sua produção como ponto de partida, para que a orientação tenha um alvo identificável.
Um comando possível é: “Quero praticar. Analise minha tentativa, identifique o primeiro ponto que preciso rever e faça uma pergunta. Não entregue a solução completa ainda”. O texto é um exemplo de instrução, não uma citação de pesquisa.
Receber uma pergunta pode exigir mais esforço do que receber uma resposta. Em uma atividade de aprendizagem, esse esforço pode ser justamente aquilo que queremos preservar: decidir o próximo passo e explicar por que ele faz sentido.
A instrução também não transforma um chatbot comum em tutor confiável. A resposta pode estar errada, interpretar mal a tentativa ou entregar a solução apesar do pedido. Professores e responsáveis pela formação precisam revisar materiais e acompanhar a adequação das orientações.
“Seu texto está excelente” oferece pouco para quem quer melhorar. Um comentário útil identifica um trecho, apresenta um critério e explica como a escolha afeta o leitor. Esse tipo de retorno é conhecido como feedback: informação que ajuda a ajustar uma ação ou um desempenho.
Ao praticar uma apresentação, peça que a ferramenta localize uma passagem em que o contexto ficou insuficiente. Ao revisar um relatório, pergunte qual afirmação precisa de evidência e por quê. Em ambos os casos, compare o comentário com o material original.
Você continua responsável por aceitar ou rejeitar a sugestão. Uma recomendação articulada não é automaticamente adequada ao público, à instituição ou ao problema que precisa ser resolvido.
Depois de receber a orientação, revise sua resposta antes de pedir outra. Isso evita uma sequência em que a IA faz todas as alterações e você apenas confirma. A revisão deve mostrar uma decisão: o que foi modificado e qual motivo orientou a mudança.
Se a dificuldade foi justificar um indicador, escreva novamente a justificativa. Se foi explicar um termo técnico, produza uma versão mais clara para o público escolhido. Em seguida, compare as duas versões e identifique o que melhorou.
Uma melhoria local não comprova domínio amplo. Ela oferece, porém, um registro concreto para orientar o próximo exercício. Desenvolver uma habilidade envolve acumular essas tentativas e verificar sua aplicação em outras situações.
O passo seguinte é variar o problema. Trocar apenas os nomes em um exercício pode permitir repetir um procedimento sem compreender a razão. Uma nova tarefa deve exigir alguma adaptação: outro público, dados diferentes ou uma condição adicional.
Para a pessoa que estuda planilhas, proponho um conjunto pequeno de dados fictícios. Ela deve escolher uma comparação, montar a análise e explicar a decisão sem consultar a IA durante a primeira tentativa. Depois, pode usar a ferramenta para revisar o que fez.
É possível manter recursos que fazem parte da prática profissional, como documentação e calculadora. O importante é definir previamente o que está sendo avaliado. Autonomia não significa memorizar tudo; significa conduzir a atividade e saber justificar o uso dos apoios disponíveis.
Uma formação pode separar três momentos: tentativa individual, prática assistida e aplicação com assistência reduzida. Cada momento responde a uma pergunta diferente: o que a pessoa já sabe, como reage à orientação e o que consegue transferir para uma situação nova.
Minha proposta é registrar poucos critérios, conhecidos antes do exercício. Em um relatório: coerência da conclusão, correspondência com os dados e capacidade de explicar escolhas. Em uma apresentação: contexto inicial, clareza dos conceitos e adequação ao público.
O uso da IA também precisa ser transparente. Se a atividade pretende avaliar uma habilidade individual, os participantes devem saber qual apoio é permitido e como registrá-lo. A clareza melhora a interpretação do resultado e evita avaliar uma produção assistida como se fosse uma demonstração de domínio independente.
Antes de usar a ferramenta com um grupo, experimente as tarefas e confronte as orientações com referências confiáveis. Verifique se ela percebe erros importantes, aceita respostas diferentes quando são válidas e mantém a linguagem apropriada.
Também considere as condições concretas: acesso, custo, necessidade de conexão e tratamento dos materiais enviados. Um sistema utilizado em pesquisa não está automaticamente disponível com o mesmo desenho em uma assinatura comercial. Um comando semelhante tampouco garante reproduzir os resultados publicados.
A IA pode oferecer mais oportunidades de prática. Seu valor educacional precisa aparecer no que a pessoa passa a compreender, explicar e realizar. Quando a ajuda é organizada para preservar esses movimentos, tecnologia e desenvolvimento pessoal podem caminhar juntos.
Se você quer levar essa prática para sua rotina profissional, o guia de IA no trabalho oferece um ponto de partida para escolher uma tarefa e revisar o resultado. Ao usar a ferramenta para aprender, acrescente uma tentativa sem assistência para avaliar o que consegue realizar por conta própria.
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